Algumas das minhas poesias  

 editadas na Internet em 2008 - 2009                                          Mykola Szoma

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Os meus cotidianos afazeres
 
Cabe a mim proemiar os meus afazeres,
como resposta sensível -- solícitos impactos,
do cotidiano labutar na estrada da existência.
 
Depois, de arregaçadas as mangas, jorrar
suor latente em minhas veias, pelos porosos
interstícios, da pele esticada pelo cansaço...
 
Extravasar até o fim. Até não mais seja possível
fluirem as gotas refrescantes pelo corpo irado...
Não mais podendo refazer as coisas já desfeitas.
 
Apenas, deixar assim!.. Mais ou menos, sem fim.
A presença marcante -- nos termos do necessário,
estender as mãos para cima -- ou ser hilariante!..
 
Para mim, os meus atos são nucleares e vitais,
na medida que entrosem em mim os meus ideais.
Podendo até serem bem comuns e, até triviais!..
 
Resumindo, diria assim: São fatores ponderáveis,
do cotidiano sabido, dos meus atos -- afazeres
que, sendo-me reais, só trazem-me prazeres!..
 
Visão apocalíptica
 
Manchas de desertificação.
Pisoteio de gado.
Queimadas.
 
Areia matado as pastagens.
São todos covardes!
Abutres irracionais!..
 
Destroem a si mesmos.
Caminham para a morte.
Navegam a devastação vegetal.
 
É o fim!..
 
No vórtice do progresso
 
De solidão soturna fantasiados,
milhões de homens robotizados
perambulam pelas calçadas.
Sós... Despersonalizados!
 
A máquina se ri, de si por si,
no ranger enferrujado das engrenajens.
Está tudo desolado. Ou, quase tudo...
 
Queimadas foram as últimas pastagens.
No crepitar das folhas secas
ressoa um cântico saudoso
dos tempos em que a lua
ainda sentia-se amada,
o sol ainda era um astro febril
e, nas tardes de verão, resplandecia.
 
Hoje, tudo é  tão diferente!
 
No vórtice do progresso
sustem-se só quem pode equilibrar-se
qual trapezista de um circo decadente.
 
Milhões de homens robotizados
se esboroam na vertigem do vai-e-vem.
 
De ópera bufa
 
Recluso em mim mesmo,
procuro achar-me...
 
De ópera bufa
alguém já me disse
eu ser um ator.
 
Mas, como?
 
Eu sou um pacato!
Não bebo.
Não fumo.
 
Eu sigo o meu rumo afora
-- alegre, embora nem sempre,
ao meu chafariz...
 
Por vezes, vejo crescer o meu nariz...
 
Até, posso ser um palhaço.
De cara pintada,
nariz embolado,
de calças rasgadas,
de camisa sem mangas
e, sem sapatos, nos pés.
 
Mas, dizer ser ator
de opereta qualquer?
-- Não dá!
 
Por que tantos, então,
falsa imagem de mim
fazem?
 
Não será
porque em sendo covardes,
nos outros projetem,
seus sonhos alardes?
 
Ou será
porque notam em mim
um manso cordeiro
ideal ao seu fim.
Um bonachão arlequim?
 
Recluso em mim mesmo
procuro achar-me.
Na verdade, quero entender
o porquê de eu ser assim?
 
Quase perdi-me
 
Profundas grutas -- mui tenebrosas,
de José Régio, o poeta, eu visitei...
Confesso franco, quase perdi-me!
Por pouco, pouco, não me achei.
 
Dos seus assombros senti o impacto.
Na noite fria e já inerte, imergi...
De um passado, embrenhado nas selvas,
mistérios mil, lividamente, conheci.
 
Então, sufoquei as minhas dores.
Na lua dos sonhos meus, me projetei!
 
Tentei analisar as refletidas imagens.
Não consegui... Porém, compreendi:
em sendo assim a lei, reflexo seu
será a vida. Da norma, a refletida!..
 
 
A grande despedida
 
Rompe a aurora da madrugada os horizontes.
O alvorecer de um novo dia se alevanta...
Resplandece o sol os raios seus luzentes,
enquanto a natureza toda vibra e canta...
 
Enquanto os céus de azul-cetim espargem a claridade;
por sobre as vagas ondulantes fótons de luz pululam.
As águas turvas das pororocas, qual tempestade,
se agigantam e se agitam. Doidamente confabulam!..
 
O universo se esparrama, contorcendo-se sobre si mesmo.
No intuito como querendo explodir, em glória implode...
Talvez querendo despedir-se da noitada triste. E parte...
 
Parte chorando. Chorando de saudade, orvalho derramando.
Pelas colinas, pelos vales e pelas montanhas, num frenesi,
vai galopando acelerado. Irá viver saudades em outra parte...
 
O bardo dos cantos de iara
 
A natureza toda exultante
se contorcia  de alegria...
É que naquele mesmo instante
a flor mais bela já nascia.
 
Os céus sorriam de cotentes.
Estrondejavam os trovões...
E as estrelas luzi-reluzentes,
o feito espargiam pelos sertões.
 
Cantavam ninfas seus acalantos
nas madrugadas da primavera...
 
Enquanto a dor e os desalentos
roiam n'alma tristes momentos
do velho bardo dos cantos de iara
-- cantando seus versos relentos.
 
Um mundo novo
 
I
 
Que cessem, da morte os canhões,
o seu fúnebre canto!
 
Ressoem os sinos da paz
-- o canto dos homens de boa vontade
na busca efetiva de amor entre os pares
nos laços fraternos de real amizade!..
 
Não chorem mais os velhos
-- vencidos guerreiros
pelas lutas do dia-a-dia.
Seus feitos, jamais esquecidos,
serão venerados e tidos bem-feitos.
 
Crianças não chorem
-- não há mais a fome.
Brinquedos, vestidos,
a todos, aos montes.
 
Escola, cadernos e lápis e mestres
-- são todos amigos!
Sorriso nos lábios. Desejos antigos.
 
Casais separados não mais se hostilizam.
Educam seus filhos e se realizam.
Tudo é tão calmo, parece um nirvana.
 
II
 
Do éden o aroma perfuma os espaços
e frutos e flores de líricas cores,
de olores suaves percorrem airios:
os montes e vales
escarpados e serras
estepes e prados
rochedos
areias
e mares bravios e rios e lagos...
 
As nuvens e as vagas dos mares,
num coro sublime, polifonam
as suas ondúleas vibrações.
 
III
 
Dobrai os sinos o seu último canto funéreo.
Da guerra os funerais clamai!..
A paz venceu!
-- Vitória! Vitória! Proclamai.
Aos quatro ventos dos hemisférios
a paz vencendo anunciai!
 
IV
 
Tres cruzes altas de concreto
na terra ensanguentada ancorados
serão lembrança triste do passado
-- de ódio e de vingança,
para sempre enterradas.
 
V
 
Que cessem, da morte os canhões, o seu fúnebre canto!.
Que bradem, os sinos da paz, tangendo canções de acalanto!
O mundo livrou-se do medo e do pranto. São todos irmãos...
Ecoam canções, por todas as partes, de amor, não de espanto!
 
Eis-me engastado
 
Sem que o queira
eis-me engastado
no surrealismo:
 
dual encontro da consciência
-- razão de todas as intrigas:
o Bem -- construção
e o Mal - destruição.
 
Uma consciência sem razão!
 
Entre os dois extremos
o mundo se joga
como se na síntese
achasse a solução
aos magnos problemas
 
-- pueris heróicos di-lemas
de fatal consequente em ação.
 
No sarcástico repousa a existência
de todos os seres mortais. Os tais.
No fantástico vis-lumbram
a essência, todos os viventes
-- os ditos humanos normais.
 
Na guerra de todos os dias,
matando a fome, bravios --
os soldados do mundo
procuram forjar os seus anos reais.
 
Lutar contra o tempo?
Fatalidade que só por si sói
a todos brindar. Não chorar!
 
Não sou mais eu
 
Não mande-me mais cartas. Eu mudei!..
Mudei de endereço. Agora, moro na lua.
Do lado direito do oceano das tormentas,
-- na onda das tempestades ocidentais!..
 
Não posso comunicar-me com ninguém.
Perdi a condição de um cidadão terreno,
para tornar-me um habitante iso-lunático
e sem direito de um terráqueo luni-planar.
 
Porque? Por que, não sei! Nem saberei!..
A gente muda a todo instante. Intrigante!
Não queira a outrem perguntar. Esqueça
que um dia me conheceu. Talvez padeça.
 
Mas a vida assim nos concebeu. Depois,
selou a nossa sorte. Um novo passaporte
nos transferiu do sul para o norte, até que
a lua, nos braços seus, nos acolheu. Eu?
 
Mudei de endereço. -- Não sou mais eu!..
 
Seu nome é qualquer
 
Pelas ruas vazias,
de um bairro vazio,
de gentes sem posse,
desliza, desliza
-- desliza tranquilo,
numa noite vazia,
um vulto qualquer.
 
Uma sombra macabra
seus ombros envolve,
num manto espesso,
de fome, de sede
-- de sede e de fome,
numa noite vazia,
noite sem lua, sombria também.
 
O vulto aos poucos se move.
Não anda, se arrasta...
Com nada contrasta;
nele, quase nada há.
 
É um anicão cansado.
Cansado se arrasta --
cansado da vida sem vida!
Outrora famoso, agora esquecido.
Perdeu-se na vida,
farejando um pedaço de pão.
 
Seu nome é "garrincha" da Silva Fulano;
mas, pouco importa
-- o seu nome é qualquer
 
Apoiado numa bengala
feita de um galho torto,
de uma árvore qualquer,
o vulto se move, desliza
na noite vazia
sem lua, sombria também.
 
Ainda bem que há árvores de galhos tortos
e, há os fazedores de bengala -- aos montões!
 
Há uma árvore mais adequada às bengalas
-- a bengala das matas do Brasil
Os bengaleiros mais ousados,
os bengaleiros marcheteiros,
artífices veros da arte de bengalas construir.
 
Porém, a bengala do ancião cansado,
que pelas ruas de um bairro vazio
-- de gentes sem posse, deslizava,
era bem simples...
Era de um galho torto
de uma árvore qualquer.
 
Era uma bengala qualquer
que apoiava um ancião muito cansado
-- um ancião de nome qualquer!
 
Será "H"
 
Explosões intensas.
Nuvens de fumaça.
Trilhões de megatons
de cosmo-poeiras
descambam sobre a Terra,
lambendo o oxigênio,
já muito rarefeito...
 
Rios de gás -- rios solares,
em seus meandros
pelos espaços sidéreos
desembocam no equador
que não o da Terra,
o equador do Sol.
Após o arrebol...
 
Eu, aqui comigo mesmo,
de um ponto qualquer da Terra,
observo embasbacado,
através de um vidro opaco
-- poderia ser um espelho,
as manchas solares
que alguns chamam de erupções.
 
Fusão atômica!..
-- fórmula roubada
da nossa bomba "H"?
 
As violas seresteiras
 
Serenos ânimos dos seresteiros,
na madrugada fugidia e calma,
das noites pálidas da primavera
ferem as cordas da viola cantadeira.
Aos bordões tangendo serenatas
ferem os corações das mulatas;
solicitando-as deixar-se encantar
pelos acordes sonoro-pungentes
da marota viola feiticeira.
 
O pungir das violas se propaga
pelos espaços verdes dos sertões.
Vence o tempo, voando sobre as matas,
o som das violas, chorando serenatas,
atinge em cheio o meu viver!
Ele machuca-me -- rasga-me o peito...
Viola danada! Porque a mim judias?
Porque recordas-me o passado,
relembrando o cantar das cotovias?
 
Já, no clarão das noites enluaradas,
nas madrugadas fugidias e serenas,
ao som plangente dos cantos seresteiros,
lá vai mulata -- encantadora e sorrateira
das violas o canto acompanhar.
Todinha a viola estremece. E geme...
O seu gemido enlanguidece...
Aos poucos vai ao longe se perdendo
no olhar felino da mulata traiçoeira!
 
São coisas do Apocalipse
 
A Praça Vermelha será, socialmente, restaurada
-- mausoleu de Lenine submeter-se-á a profilaxia.
Que significado, hoje, teria tanta transformada?..
VILAR é o órgão mor, a cuidar desta empreitada
-- do embalsamado em 1924. Que carícia dada!..
 
Hierocracia sacerdotal quer dominar o réu mortal.
Religarquia, na sua forma nova de "crislamismo",
propõe a fé frontal ao "cristianismo liberal" modal
do mundo cristão - protestante - ocidental. Qual?
O Vaticano II em sua forma pura e não - original.
 
Pravoslavie, adoração real -- a ortodoxia da fé...
Crislam, junção adjuntiva, ortodoxia mais islam,
para tomar a conta do oriente eslavo e do islão.
São coisas do momento. A Nova Ordem Mundial
terá de ver-se com o assunto. Que é proverbial!..
 

atarse moral

 
As tumbas do mundo se abriram.
Catarse moral dos humanos pariu
--- tantas desgraças, insultos:
seculares cadeados cairam, agora.
Tudo, que era escondido, emergiu!
 
Mas por que demorou, tanto tempo,
a moral de fachada se auto - ruir?..
Um sepulcro --- caiado por fora; lá,
por dentro, fedia as desonras:
assim salpicava-se os dias do vir!..
 
Mas não basta as lájeas se abrirem
-- é preciso fazer-se autópsias reais.
Descobrir-se o que foi vilipendiado --
pela soberba dos homens, é vital. E,
partir em restauro da base moral...
 
Aos promotores dos bem-feitos
de gerúndios factóides
 
Os catecúmenos lançaram as suas vozes pelos espaços,
acharam-se no direito de o mundo todo persuadir, de que,
em nome do ide do grande Mestre, teriam o direito próprio
de o seu reino pessoal e específico construir.
 
Exímios promotores de bem-feitos de gerúndios factóides,
dolarizam a fé dos humildes. Aos prostrados se abstraem;
distraindo-se a si mesmos. -- São atores perfeitos! Lentes.
Leem, por entre linhas, o pensar dos subjacentes.
 
Alguns --- letrólogos formados, buscam espaços culturais.
Encontram, no desabrigo dos despresados, seus ideais...
Porém, quando se sentem estimulados pela miséria e dor,
de posição mudam; tornam-se transfigurados!..
 
De catecúmenos, que um dia foram, não mais se lembram;
são menestreis do saber pleno. Conversa deles é diferente:
agora são doutores. Da vida são fautores!.. Conversam sós!
--- Que estupidez é esta?.. Respondam, senhores!
 
Um pensamento meu -- Será otário?
 
Encurtaram-se todos os caminhos do mundo.
As paralelas se encontraram mesmo antes do infinito,
globalizando os sonhos dos vendavais do ocidente que,
por causa das suas latitudes, não se entenderam; como
se os ventos seus fossem os ventos únicos do universo.  
 
As chuvas ácidas das nuvens cinzas se gaseificaram ---
não mais cairam... Assim, o solo não mais umidificaram.
Gigantes cúmulus-nimbus se formaram. O ceu taparam!
Os homens, como que petrificados, imunes se fizeram --
não mais água beberam! Os mares salgaram!
 
Dos oceanos, os vapores não mais foram se destilando...
Nem os continentes se uniram em tectônicos choques --
aos poucos, foram se separando! O que teria acontecido?
Das cordilheiras dos continentes, quem teria a ousadia:
fazer apenas uma festança de confraria?..
 
Das Cordilheiras Andinas, quem estaria a base retificando?
Eu, cá comigo, fico pensando e, na medida dos pensares,
imagino qual seria hoje o fado dos primevos habitantes ---
que teriam descoberto, antes dos brancos, o Gran Chaco?
Deveia ser dificil, com eles, o Jogo de Buraco!
 
Mas, as minhas ponderações, vou terminando por aqui!
Não quero que os outros tenham idéias falsas sobre mim
-- sou um pacato pensador "itinerário": ora aqui, ora ali;
porém, viajo seguro sempre: nas mãos um mapa-mundi e,
no coração, o relicário das coisas do ideário!..
 
Kalyna e koni
 
Versão romântica da pátria temos;
por isso,
não a fizemos politicamente forte.
 
Quando cantamos
"chervona kalyna" se vergou, sentimos
o peito nosso derramar-se em prantos;
porque uma beleza, no antanho, feneceu
e, o colorido todo dela, acabou...
 
Depois, pedimos à rapaziada:
"rozpriahaite khlopsi koni"; então,
buscamos a solução à desventura
num sono do passado.
-- Um sono que há muito nos deixou!
 
Não esqueçamos a "kalyna"
nem fadiguemos os nossos "koni";
porém, lancemo-nos à luta de um combate
-- para a defesa da pátria nova,
mesmo que sem a "kalyna"
e sem os "koni".
 
"Koni" modernos criaremos.
Terão asas e voarão como pegasus
novas "kalyna" plantaremos
nos campos vastos da nova nação!..
 
Dai-lhes vós
 
Dai-lhes vós de comer
que sejam migalhas,
esfareladas mesmo mas,
que possam a fome deter
para que vossos cultos
de soberba beleza
não se findem e que
ainda possam crescer!..
Dai-lhes vós de comer!
 
Dai-lhes vós o vestir-se.
Farrapos ou trapos --
que seja o que for parecido;
deles falta vós não tereis
mas, sossego da mente,
tranquila e inocente
em seus corações sentireis!
Ação boa é toda boa ação --
já foi ensinado assim no passado.
Por que duvidar
de um retorno tranquilo à causa --
a de ser pelos ingentes adorado?
 
Uma rota camisa
uma calça rasgada
uma meia furada ou
um paletó sem botões
valer pode muito para quem
não tem nada; porém,
mais valer vai para o seu doador.
Será visto senhor benfazejo,
repleto de amor,
benfeitor do seu próximo...
Terá garantido, no reino acima,
um assento repleto de glórias
adornado de coroas de ouro e,
o mais importante, jamais sentirá uma dor!
 
Um detalhe deverá ser cumprido ainda,
ao se dar uma esmola qualquer:
deverá ser erguido um "templo"
no qual será inscrito o nome do praticante
dos atos tão nobres como os de:
doador de migalhas,
de trapos rasgados,
de sapatos furados
e, por fim, anotar: "este é
um ator mascarado de moral duvidosa,
só buscou a grandeza para a sua alma
maldosa".
 
Lembranças históricas da vida
 
Ela passou sem dizer nada.
Não olhou para lado nenhum.
Não chamou atenção de ninguém.
 
-- Ele a matou! ... Por que?..
 
Pensei,
não entendi,
como podiam acontecer coisas assim?
 
Ela passou. Silente. Indiferente.
Ele a matou!
Um tiro por nada ... acabou!
 
Algo valia a vida para ele?
Não a vida dele, a do semelhante,
a dela que, por acaso, ali passou
e ele -- seria desalmado?
e a matou
sem perguntar a si
sem perguntar a ela
o que fazia ela ali,
p'ra merecer a morte insana
-- simples quimera?
 
Aquele instante de morrer
foi o instante dela, sem merecer
e sem saber porque...
 
Haverá instante mais assim
em que mais gente morra
sem a fim de que? E,
sem saber porque.
Por causa que...
 
Responder não sei;
se puder, responda você!
 
Devaaneios no ar
 
Levanto os olhos e nada vejo
lá em cima. Apenas nuvens,
navegando meio perdidas --
pequenas, grandes,
cumulus-nimbus,
algumas cirrus,
nuvens de chuva também.
 
Veem de algures,
vão p'ra alhures --
algumas se perdem
pelos caminhos além.
 
Dizem até, que há sete céus.
Pode ser a verdade;
eu não duvido --
não descreio em ninguém.
Porém, poderia ao menos
em um deles conhecer as
delícias que alguns ditos
dos seus súditos dizem?..
 
Ou talvez, um dos sete
mais perto estivesse de nós,
para que, sob a nuvens,  
o seu plano espraiasse
as brancas suas areias
ao alcance dos incréus.
-- Corrigindo, todos nós.
 
Que naveguem nuvens negras
-- nuvens densas verticais,
gotas de água, granizo, chuva;
não seriam bolhas quentes no ar?
São intrépidas colunas
que metem medo aos céus
não os deixando descer de
patamar!..
 
Navegante errante
 
Navegante errante à procura de
um ancoradouro para  acostar --
recolher os apetrechos, instalar
os seus desejos. Está cansado
já de, sem destino, viajar!..
 
O navegante errante poderá,
um dia, o sonho realizar?..
Haveria um ancoradouro --
que pudesse abrigar a sua
nave do submundo --
o submarino, aquele imerso
nas águas conturbadas do mar
(não confundir com
o submundo dos marginais);
aliás, os dois são quase iguais.
 
Tem mais, o navegante
é misterioso por demais.
Diz ser um buscante bravio
dos Cisnes dos Lagos,
aqueles da dança do
Lago dos Cisnes
que fizeram outrora
as delícias das Damas
e dos Senhores feudais.
 
Como eram todos eles,
em seus sonhos,
tão parecidos e especiais!
Jamais serão esquecidos
por suas façanhas geniais.
 
Navegante errante à procura de
um ancoradouro para  acostar;
arrimou-se às nossas praias --
pediu licença p'ra desembarcar.
Haveria algo em sua mente
que nos poderia ensejar?..
 
Não seria ele um farsante
que quisesse nos roubar?
Um pirata dos altos mares
se fingindo um navegante
uma causa por desnudar.
Mas se pode sempre duvidar!
 
Navegante errante à procura de
um ancoradouro para  acostar --
recolher os apetrechos, instalar
os seus desejos. Está cansado
já de, sem destino, viajar?..
Esperemos
o que pode ele nos contar!..
 
Pergunta a um "amigo"
 
O teu conteudo de fora,
será um conteudo maior
do que o de dentro de ti?
Não será tua vida externa
mais uma vida de nada?..
Uma vida que só é vivida
por causa dos ais, -- que
há muito, tu jorras de si?..
 
Não respondas! Perguntes
somente dos teus ideais.
São eles consistentes, ou
apenas são cacos de ais?
Muitos deles, são tais quais
os teus dias felizes o foram
-- por surtos de insultos aos
pobres, e muitos incultos...
 
Por que então achas que és
mais feroz que os mortais?..
Também és mortal! O portal
de passagem abriu-se pra ti
--  a hora chegada está!..
Terás de partir breve daqui.
Terás tu, por acaso, morada
sensata do lado de lá? Será?
 
Restrospectiva do que era
 
Ele chegou todo garboso,
cheio de si e do seu saber
-- até mostrava ser ditoso.
Vinha das glebas secas e
já seifadas pelo ocaso...
 
Sem um descaso, foi esta
mesmo a história da triste
dele trajetória, que se ruiu
ao som de batuquins ruins
-- imitando tamborins...
 
Foi lá nos quinze anos idos.
O povo era animado. Só ria!
Queria ter uma mestre-cuca
que soubesse assar um pão,
e diluir na água o sabão.
 
Não foi assim que se seguiu.
O pão não se assava, o que
ainda tinha se consumia -- e,
apenas o sabão se diluia nas
águas da pobre sacristia.
 
"ducados" femininos surgiram!
Os masculinos se tingiram --
até hoje não se sabe de cor Q.
Dizia, então o mestre, esperar!
-- Que iria algo melhorar...
 
De fato, o inusitado aconteceu.
A ensinante "sábia" emudeceu
-- e, não porque o quis; porque
o mestre-cuca, "sabidamente",
o predisse... E disse!..
 
Luzidia, era o nome que luzia!..
Brilhava à noite e durante o dia.
Não enchergava, quem não via,
também o mestre disto sabia...
Daí em diante, só acontecia.
 
Mas não. O mestre não queria.
Derrubou a cadeira luzidia, ela
se foi ao meio dia daquele dia!
Tudo parou, como se não luzia.
Exigiu-se a orfanologia!..
 
Mas, também, não foi somente.
Havia cantadores nesta gente!?
O cuca de sabido, com a prole
que de "temido" fez tremido os
labores das cantareiras;
 
Trirou-as, uma a uma, de cima
das prateleiras. Queria renovar
o seu canto de sereias. Feias?
Eram até alinhadas, chilreavam
como pombas belas...
 
Ao som do cravo ou dum piano,
não me lembro, era de antanho.
O conjunto (mais d'um) cedeu --
a voz calou e o som emudeceu!
A prole mestral venceu.
 
Foi então, que tudo escureceu...
Ninguém cantou. O piano parou.
Apenas os batuquins -- E ruins!
Tocam a sós, imitam tamborins.
-- Proletários mafi(-ns)...
 
A pergunta última restou agora,
quem levará a grande desforra?..
Digo, paredes quedas do medo
-- lembranças do passado, que
um dia era o bem cantado.
 
Há um serafim humano, e mais o
o querubim anti-romano. Ambos,
querendo de algum modo vencer
-- um destruino, o que ve e pode;
o outro, do primeiro o poder.
 
Assim é:
o desmantelar do que um dia foi.
 
Um jardineiro imprecavido
 
Um jardineiro quis plantar 200 orquídeas,
em seu jardim improvisado, -- às pressas.
-- O terreno dizia ser dele já há muito; mas
de tanto descuidado, ...capim não nascia!..
 
E tudo que ali brotava bonito, logo fenecia.
Dizer porque, ninguém sabia! Assim se ia.
Se ia vivendo... -- Carpindo mal. Carpindo!
Carpindo o que, saber-se não podia. Ora...
 
Deveria ser o joio que ali só nascia. A terra,
mesmo que sendo boa, produzir não podia:
o jardineiro não regava. Nem ele água bebia.
A torneira sempre era seca. Dela nada saia!
 
Um dia, de surpresa, o jardineiro anunciou,
plantar iria só 100 cravos da cor amarelada,
daqueles que brotam nas tumbas dos idos,
esquecidos por também os não lembrados.
 
Quando não mais se esperava, as bromélias
já ali brotavam. E cem não eram; apenas, 60
delas vingavam. Das duzentas originais, -- É!
Apenas quarenta flores-espinhosas pintavam.
 
Contente o jardineiro com a colheita fabulosa
quis regar a terra, para deixá-la mais aquosa;
não percebeu, a água estava muito quente --
das 60 bromélias restaram 30 simplesmente!
 
Um jardineiro quis plantar 200 orquídeas,
em seu jardim improvisado, -- às pressas...
E, ao regar a terra, a água era quente --
Restaram-lhe 30 bromélias tão somente.
 
Meus miolos na escala do arsenal
 
Meus miolos são tingidos de cinza claro.
Dizem que o produto foi usado em natura
-- em tempo quando ainda produzido não
o era em escala de industrializado. E era
o mais eficiente e eficaz no predicado!...
 
Correspondia às especificações da norma
-- a vigente na ocasião, que o produto, em
sendo aplicado, o fosse de pleno coração!
Não machucasse os desejos sutis e belos
da alma pura. Aquela que almejasse amor.
 
E foi assim que os sonhos sombrios cinza
se imiscuiram no sangue vermelho da vida.
Por um propósito inicial de tingir de belo os
dias do pensamento humano e das almas,
acabaram por tornarem-se amargas palmas!
 
Depois, enfeitaram os caminhos das igrejas
-- por todos os lados possíveis, até os riveis.
Muitos deles incríveis, irresistíveis, de cacto
e até são comestíveis. Dizem serem críveis.
 
São críveis, porque são reais. São naturais!
Distam da cor cinza de meus miolos e mais,
não brotam mais, como antigamente faziam.
Perderam o seu natural sentimento de nada,
para tornarem-se tudo na escala do arsenal!
 
Eras um dia algo
 
Quando as lágrimas tombarem
sobre a poltrona ou sobre o sofá
-- aquele do estrado alto e com
o tapete estendido dos orientais,
 
dos teus amigos lembrarás e tu
-- como que de retorno aos idos
terás sentido a falta dela e, mais
ainda, relembrarás os sonhos --
 
que já ruiram quais dominós
que se partiram nos disfarces
carnavalescos de uma túnica
-- sem mangas e sem braços.
 
De capuz que escondeu a paz,
não retsrama nem as sombras
dos teus dias sonambúlicos de
de ventríloquo astuto e sagaz!..
 
Eras um dia algo. Nada és mais!
Eras algo, porque não eras gente
- fazias coisas sem pensar! Logo,
se não pensavas, ...não existias!
 
Não existindo, simplesmente...ias
te deslocando aos ventos cardiais.
Dos movimentos peristálticos dos
outros -- chamados seres virais...  
 
Quando as lágrimas tombarem
sobre a poltrona ou sobre o sofá
-- aquele do estrado alto e com
o tapete. Sentirás-te um patuá!.. 
 
Abestalhados vidiotas
 
Decoreba -- louvável ato de criar memória,
assimilando os processos de estocar as
ditas "leis básicas" do conhecer humano.
 
Depois, é só entrelaçá-las em cruzadores
investimentos cerebrais, para obterem-se
os mais inovadores e válidos suprimentos!
 
Atos criativos não passam de combinação
de coisas já existentes e conhecidas ante.
E estas, algures devem estar armazendas,
 
Haja alguém que delas uma noção tenha e
saiba como e onde possa servir-se delas...
Para compor um rosário novo de aquarelas!
 
Depois, criaram a matemática dita moderna,
encheram os livros de figurinhas e desenhos
-- apagando a abstração mental das gentes.
 
E, todos abestalhados, "vidiotas" acabaram
pensando em nada -- nada em seus miolos
foi encontrado. Até o córtex foi desbotado!..
 
"Paz e amor", ou algo similar, aglutinaram
ao sibilar dos gritos sufocados da miséria --
a dor e o sofrimento de outrem ficou pilhéria!
 
Agora, todos igualados na mesmice básica,
de "sesta básica" se nutre os corações. São
atos caridosos dos corruptos. -- São foliões,
 
Os que da vida comem as migalhas. Os que
migalhas fazem para nutrir os seus menores.
Ao fim e ao cabo, diria eu, são todos atores!
 
Atores do coletivo falso. Um coletivo que vive
na mente apenas de alguns. Os chamados --
"doutores doutos". Os outros, são comuns...
 
A taça comunitária
 
A taça da comunhão não foi comum a todos,
houve alguns que a tiveram toda de ouro puro;
mas outros, apenas a viram em suas mãos --
de plástico barato... Modelo que se descarta,
aquele da China importado... O mais barato!..
 
Os clérigos não se misturam com os prelados.
São honrarias destes que conduzem o missal.
Aos clérigos compete controlar o povo e o fiel
devoto abnegado que, a espera de migalhas de
dizimais promessas de hortelã, em fé se esvai!
 
Talvez, num copo d'agua benta sobre uma tela,
aquela tela que reproduz toda a sorte de traíras
da irmandadde santa do carteado. Do pôquer --
dos irmãos americanos, nas mentes enraizado.
Por um décimo da tua renda, serás eternizado!
 
Caminha assim a humanidade. Para onde será?
Certeza tem-se e, esta é a verdade: uns poucos
com o cálice bento de ouro em bandeja de prata;
enquanto a maior parte dos párias -- e sem nada,
batem palmas de glórias. -- Um dia algo haverá? 
 
Do Salmo 96
 
Cantem! Cantem!
Cantem um cântico novo.
Encham os cântaros
de cantigas de encanto
que elas efluam
por todos os lados,
vertendo transbordos
para fora das suas paredes...
 
Cantem! Cantem!
Cantem que o canto é lindo,
quando é cantado
por todos os cantadores,
por todos os homens
e mulheres da Terra.
Que cantos evoluam
como serpentes gigantes,
com seus braços airosos
abracem as gargantas de todos
que dispostos se ponham
a cantar da vida os encantos...
 
Que os deuses do mundo
se curvem -- de agora em diante,
não há mais que o Deus poderoso.
E os outros, invenções são dos homens
que, ao uivar dos ventos bravios,
se perdem à toa -- como a brisa
se espraia à luz de uma linda manhã.
Nada lhe resta à tarde
que ao sol foi queimada
pois não passara de uma simples cortesã.
 
Cantem! Cantem!
Cantem um cântico devido
de oferendas cravejado
despoluido, de coração puro
em uníssono e afinado!
Nos átrios do Senhor
que o nome dele seja, dignamente, venerado!
Que cante toda a Terra --
que brame o mar e a sua plenitude.
 
Cantem! Cantem!
Cantem todos um cântico novo.
 
A oração dos Startsi
 
O Ocidente está de pé ainda
por causa apenas das orações
dos idosos do Oriente. E só...
"Startsi"! "Startsi"! Orai por nós,
enquanto aqui nós nos fartamos
-- o do melhor, saboreamos...
 
Já disse alguém, que o Deus
o dedo seu em riste apontou p'ra
Ocidente e erigiu da Rússa Cruz
-- abrindo a porta para os lados:
a escolha p'ra sinistra, para destra.
A cada qual cabe o destino seu!..
 
O céu e o inferno estão unidos --
leis faltam para tudo separar. Já,
no Ocidente programado, basta
viver, viver. Em nada mais pensar!
A qual dos dois, cabe a Deus irar?
-- A quem os golpistas iriam apoiar!
 
Da Rússia, Deus guardará a sorte,
p'ra que a morte vingada seja um dia.
No Ocidente, não terá fim a alegria!..
Se as orações ouvidas dos "Startsi"
reconhecidas forem pelo(s) Petrarca(s)
Não restará do triste ido nem marca.
 
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1.
"Startsi"
-- velhos monges dos monastérios; levavam a vida
rezando pela purificação espiritual de seus semelhantes.
Eram os legítimos guardiães e propulsores da espiritualidade,
da cultura e de toda a vida (sócio-política) russa.
2.
Petrarca (Francesco Petrarca)
-- an Italian poet famous for love lyrics (1304-1374)
 
"Vedi la fonte d'ogni bel costume,
d'ogni eloquenzia e d'ogni bel vulgare,
poeta singulare,
misser Francesco,
che Fiorenza onora."
 
Análise de um perfumado
 
Idiota perfumado
é menos inteligente
que o perfume que usa.
 
A prova está no perfume usado --
quanto mais forte e nauseabundo,
mais indica que o usuário é insosso
-- de baixo do perfumado
só um cesto de ossos
cheio de carboidratos,
já digeridos e incorporados...
 
Idiotizar-se é o seu campo ideal.
Não ter posição, para não se opor
-- a vida "lógica" é não polemizar!
"Viver" sugando as "idéias" de outrem,
caso as venha captar... E só "caminhar".
Na verdade, arrastando-se na maionese
de salada de outras verduras, misturada
com sais ao vinagre, pimenta, mostarda
e alguns ovos batidos. ... de codorna ou
de galinha, de preferência, sortidos...   
 
No cotidiano,
o ato normal idiotiano
é imitar um avestruz: é
meter a cabeça perfumada
num incolorido capuz...
 
Grosseto de Toscana
 
Aversão ao fascismo arrogante
invade as estradas de Grosseto.
O poder absoluto mata as liberdades,
o indivíduo e a sua solúvel solidão.
 
Conspiradores que não conspiram:
amigos do subversivo Mariani.
Em pensamentos solitários e confusos
combatem aos filo-fascistas de Toscana.
Mas a sua luta não é com armas.
É, na ausência delas que conta o seu poder.
É o desvio de um homem do rebanho
que fará cair por terra todo o mal!
Sem ter paixão de mártir,
num grupo social mutante,
o melhor é estar calado.
O melhor é mesmo estar calado
entre os companheiros da solidão!
Que narre a história os devaneios
do poderoso contra os indefesos!..
Na arte do silêncio de uma folha
imprimirei os escassos  fatos... Ó!
Os fatos de Grosseto de Toscana!
 
Fugir o deformado corpo de crianças,
porque a paz não há de rsidir nos seres vivos?
A esperança é um fruto
que apodrece em nossas mãos!
 
Na solidão de Mariani
na distante Grosseto
nasce um cântico de dor e de libertação...
Nos escritos de Alessandro Manzoni.
--- Não leia quem não puder!
Digo sim e, digo não.
E ouça, quem quiser...
 
Na dança dos blocos ginga do mundo,
no divórcio das falhas geológicas
não se esconde a verdade nua e crua
aos meninos vagabundos da nossa rua!
 
Aversão ao fascismo arrogante
invade as estradas de Grosseto.
Tenho lido algo assim
em algum lugar. E este poemeto
que seja apenas um simples torpedo
da expressão da verdade de Grosseto.
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Alessandro Francesco Tommaso Manzoni (1785-1873)
Scrittore e poeta italiano.
 
Por que demônios?
 
Na minha ocre solidão de ex-campônio,
que ex não fora de natureza ,
eu tenho a alma simples de um roceiro...
 
Mora saudade traiçoeira
ardendo qual braseiro
meu peito adentro
que me inflama e me machuca o coração!
Por que demônios?
 
Por que padece um campônio tanto?
Por que mais sente que os demais?..
 
Da vida os reveses mais o afetam
será porque  tem o coração mais puro
ou porque tem a alma mais ardente
que a mais ardente alma dentre os mortais?
 
Por que a saudade de um campônio
é mais saudade?.. Mesmo que ex não fora
de natureza, a sua alma camponesa?
Será porque a saudade sua
é uma saudade mais saudade que a saudade
dos saudosistas, que é a mais saudosa dentre
os mortais? -- Não estou pensando demais!..
 
O recordar dos anos 30 de 1900
 
Naqueles dias sombrios não se notava a fome.
Pois, era tão presente ela, que o não comer era o normal!
Nem a barriga mais roncava, acostumada que estava
ao "eterno" vazio das tripas.
-- E reclamar para quem e por que? A fome era o normal...
O demais, não passava dos descuidos -- o "sophistiquer!"
de "La Révolution française" -- "à chaque étape"... na terra
dos russos mujique. Derruba-se o reino, em nome de que?
 
E por que? -- Não responda... Não quero saber!
Qual foi o motivo de tantas desgraças,
na terras dos homens que mais pareciam escravos...
Perderam seus sonhos e seus dias, sem se notarem --
todos passaram, à história, como herdeiros de bravos!..
 
Cada ser humano,
sentindo-se um desumano,
via no seu semelhante
restos de uma civilização ruindo.
Em cada semblante
reflexo de um rosto disforme
marcado pelo excesso de ossatura
geometricamente irregular
-- apenas cadavérica se via, sem respirar.
 
Cada corpo que se deslocava,
pelos corredores estreitos da vida,
parecia ser um arcabouço desajeitado
de silos corroidos, dos velhos asilos,
em processo de uma lenta destruição.
 
Não se houvia prantos... Não os havia.
O chorar não adiantava nem importava
-- a ninguém interessava.
Eram os mujiques russos. E bastava!..
Os sentimentos se desfizeram como fumaça.
O homem rude (que um dia era) perambulava
pelas esquinas da desfeita. Procurava algo --
não achava. "Morte" o buscado se chamava!
 
Das dez pragas do Egito
a primeira, no cavalo amarelo do quarto selo,
então vingava. E, o cavaleiro do cavalo negro
bestamente cavalgava: como foice e martelo,
firmes na mão, a todos ceifava. E cavalgava!
A fome que era fome de verdade, a todos os
espíritos e a todos os sopros vitais domava!
E todos choravam,
apenas a fome não chorava,
porque não tinha lágrimas --
porque não sentia e não via!
Ela não via, o que se dizia...
 
Dizia-se à boca pequena --
e todos, pequenos e grandes,
sem terem visto o selo da besta
sentiam sobre os seu ombros
uma ira divina,
mas não os ocidentais -
"a ira dos deuses e dos anjos também
que nos castigue à vontade, porém
não nos jogue além do além! Amen!.."
 
Anos trinta
foram anos medonhos!.. Tão longos, que
jamais terminavam e, cada vez mais,
os homens que os vivenciavam -- animais
irracionais se tornavam. Não choravam!..
 
A fome grassava.
Dominava os espaços vitais.
Os campos, que antes floriam,
sem chuva secavam -- não verdejavam mais.
A culpa não era do tempo e sim, dos iguais.
 
Parreiras murcharam,
seus frutos não deram.
Os trigos tombaram,
não mais vegetaram.
 
De sede cairam os viventes mortais e,
fracos sumiram no meio dos ossos insossos.
Naqueles dias dos anos sombrios da fome
viveram a morte total os mortais. Todos
sentiram o Apocalipse na carne. Eram assim
de Deus os sinais? E eram severos demais!..
 
Naqueles anos nauseabundos
cada ser humano via
no semblante do seu semelhante
restos putrefatos de uma civilização ruida.
 
Não estaria sendo
a "Revolução Francesa" vencida?
 
Tia M'ria
 
Era uma vez uma "tia"
era chamada assim, porque
dizia ter o saber de toda a freguesia.
A todos conhecia, conselhos dava e
não blefava.. -- Quem a conhecesse,
tranquilo não dormiria. De tudo
ela  -- a "tia" saberia.
Era assim a sua inusitada sabedoria.
 
Era isso que, a seu respeito,
ela pensava e dizia. E dizia
para toda a sua freguesia
-- de aconselhados, entre fronteiras,
de sua suserania.
O pior de tudo é que
acreditava naquilo que afirmava.
 
E dominava... Porém, não faturava,
porque somente o bolso dela é que
se esvasiava. Alegre, ela sorria...
Depois, só na lembrança se lamentava.
Mas, não chorava. Dizia ser forte.
-- A "tia" suportava e não chorava.
 
Alguns passadistas sentem
dos tempos juvenis dela
uma verdadeita nostalgia.
A freguesia, ao redor dela, só progredia
e só ganhava. Ela crescia, porque
achava que semeava. Resumindo,
todo aquele que a conhecia,
em seu próprio bolso, algo amealhava...
A "tia" sentindo-se gratificada, suspirava!
 
Carnês plantava
e sustentava grandes negócios de fé.
Alianças de plástico até comprava --
Elas abriam as portas do paraiso
para quem nelas depositasse
quantias substantivas nos portos de areia;
e, dos construtores de gigantescas balsas,
para as armadouras dos navegantes sem fé.
 
Assim caminhava e caminha a humanidade.
Baseando-se na credibilidade dos outros,
pode-se provar que os ventos não sopram e
que as chuvas não chovem. Apenas tomar
a posse, do possuido pelos outros; depois,
só arrastar o pé. Para alguém dizer:
"é, não tem fé...". Um outro, vai sugerir:
"um bom carnê resolve tudo, mesmo sem fé".
 
Salmo 139
 
Ao começar pensar, já estou pensando.
Os pensamentos meus todos, Ele os vê
e deles tira pouco proveito -- são inúteis.
 
Porque são meus, de fraco conteúdo e,
porque incosistentes, não passam pelo
crivo do julgamento Seu. E sei porque!..
 
Porque sou um caído -- do jardim Éden
fui expulso como um transgressor. Traí
a confiança do Poderoso.  Do Criador!..
 
Ele cercou-me por todos os lados.
Criou limites ao meu caminhar...
Posso andar somente pelas sendas
dos Seus desígnios, sem me desviar.
 
Nem poderia me afogar nos fundos
do mar revolto, por entre as ondas,
como um peixe, me esconder. Ele
ali estará me vendo e me fará soer.
 
Mas, a sua face não me apavora,
porque encontro nela da bondade
o perdão. Ele estende-me a mão,
e dá-me a proteção. Afogar-me?..
 
Oh! Não, e não!..
Seguro posso estar na dEle mão.
Depois de expulso, lá do Éden --
amargo aprendi a lição: Perdão!..
 
Não me aborreço com os malfeitores;
pois são inimigos de si mesmos e de
seus parcos valores. Vindita terão  --
sem por isso esperar. Terão de pagar!
 
Os pensares meus, de fraco conteúdo,
porque incosistentes, não passam pelo
crivo do julgamento Seu. E sei porque!..
 
Porque do jardim Éden sou um caído --
fui expulso como um transgressor. Traí
a confiança do Poderoso.  Do Criador!.. 
 
A Severina, não!
 
Ele é fora de série.
Até parece um menestrel
-- canta seus cantos
como se forem comprimidos
para dores de cabeça,
de quem dela não pode se livrar
delas. Mas, tem de ser a
dor de cabeça de uma mulher...
Ele é Robert!
O dito foi: tem grude pelas mãos
e o prazo, jamais vencido está...
 
Mas, o reverso não lhe agrada --
sempre está no prejuizo. Embora,
de papo agradável, tudo lhe é farsa.
Em troca, tem apenas o cutucar --
na popular butique da Severina;
ficando-lhe, depois, a conta a pagar!
Dizem que a Severina sabe nadar,
nas águas dos rios naturais e
nas fundas piscinas de vitrais.
 
No fundo, ele é um trabalhador.
Batalha muito, não ganha tanto... Mas
o que consegue, elas -- irmãs da Severina,
lapidam mais depressa que se dê a conta e
o menestrel "sabido" fica só com o lápis na mão,
ainda bem que pode, fazendo a conta.
Espero que um dia a consciência dele
de algum modo desponte: a real situação
ele entenda, de uma vez, e a afronte.
Alguma Severina talvez lhe aponte!..
 
Por enquanto,
só vejo uma coleção de esquecidas
no seu abrigo incluidas --  que nada
podem oferecer... Apenas sabem lapidar
os outros -- aqueles
que não aprenderam a se defender!
 
Direi como uma dica -- não é conselho, não!
O cutucar butique da Severina, não vale a pena
se a pena for viver, todos os dias, nas mãos da
mísera e miserável cantiga da enganação.
Cuidado! A Severina, não!
 
Salmo 112
 
Às margens da Babilônia,
cantamos as nossas canções
-- são gospel  de ilusões!
Não há salgueiros,
foram todos cortados
-- apenas secas relvas rastejam.
 
Nem os capins-gordura vicejam.
Aqueles que se diziam
terem barba de Arão...
-- Todos medream!
 
Os cativos se encantaram
e aos cantos de encantos,
ao som dos acalantos
e dos búzios frutuosos,
se entregaram... -- Gostaram!
Gostaram tanto,
que até se algemaram.
E gostaram!..
 
Os opressores os ataram:
pediram os seus cantos e,
ao lado deles, juntos com
-- também cantaram.
Disseram-lhes, às palmas:
Cantem-nos e nos encantem
com os seus cantos santos!
Pode ser gospel.
Podem ser prantos.
Senhores somos.
Pagamos, ao peso de ouro:
Dêem-nos o gospel de ilusões!
 
Um gospel de paladar nosso.
Que tenha um rebolado apimentado.
Bem temperado!
Que arrase os alicerces das multidões.
Não deixe a pedra sobre pedra
-- que tudo seja ao som abafado
nas mofadas criptas dos grotões.
 
Então, teremos reconstruido a Babilônia
e seremos verdadeiros filhos de Edom!..
Ao som de canções gospel de ilusões...